Jun 20, 2010
Você não sabe, mas quando eu choro aleatoriamente vendo o futebol no bar é em Francisco que estou pensando. É em Francisco que eu penso quando acredito na seleção. E é Francisco que eu penso todos os dias, quando acordo. É em Francisco que eu penso quando alguma coisa dá certo, ou quando tudo dá errado. Quando faltam as forças ou quando as forças são necessárias, é em Francisco que eu penso. Você não sabe, mas eu nunca comprei uma tv porque, dez anos depois, ainda dói ver o Jornal Nacional sem Francisco. (…)
Jan 1, 2010
[por Katherine Mansfield]
“Embora Bertha Young já tivesse trinta anos, ainda havia momentos como aquele em que ela queria correr, ao invés de caminhar, executar passos de dança subindo e descendo da calçada, rolar um aro, atirar alguma coisa para cima e apanhá-la novamente, ou ficar quieta e rir de nada: rir, simplesmente.
O que pode alguém fazer quando tem trinta anos e, virando a esquina de repente, é tomado por um sentimento de absoluta felicidade — felicidade absoluta! — como se tivesse engolido um brilhante pedaço daquele sol da tardinha e ele estivesse queimando o peito, irradiando um pequeno chuveiro de chispas para dentro de cada partícula do corpo, para cada ponta de dedo?
Não há meio de expressar isso sem parecer “bêbado e desvairado?” Ah! como a civilização é idiota! Para que termos um corpo, se somos obrigados a mantê-lo encerrado em uma caixa, como se fosse um violino raro, muito raro?”
Nov 2, 2009
Dear,
Na semana que acabou de passar eu comecei dois trabalhos novos. Fui num show de samba. Me sentei numa mesa naquele boteco sujo com aquele compositor famoso, sambistas, produtores e amigos. Dudu Nobre passou pra dar um alô. Conheci uma mulher dama que me garantiu que somos, todos, a imperfeição do mundo. Almocei com uma amiga querida. Tomei sorvete de graviola. Finalmente vi um show de Lulina e cantei junto com todas as outras moças do lugar. Recebi aquele telefonema e ouvi aquele sotaque que eu adoro por quase uma hora. Esperei por um email que nunca veio. Assisti uma comédia romântica pra tentar chamar o sono. Tive um dia cheio e com horários, como os que eu não tenho desde agosto. Fiz um teste. Coloquei uma flor no cabelo e fui ouvir um moço chamado Tibério Azul cantar Chico Buarque no meu lugar preferido. Sorri a noite toda. Dancei; sozinha e com um estranho simpático que me rodopiou no ar. Dormi até tarde. Paguei as contas e o domínio pra botar o meu bloco na rua. Trabalhei. Comprei uma cadeira nova. Conheci um lugar incrível, que eu adoraria te mostrar. Comi o melhor nhoque do mundo. Tive um domingo perfeito com três dos meus melhores amigos e quis, com todas as forças, me mudar pruma casa no campo, com meus discos, meus livros, meus amigos, um cachorro chamado Tim Maia, e nada mais. Me embriaguei com vinho artesanal. Sonhei com o melhor email do mundo; que nunca veio.
Foi uma semana incrível.
E eu senti a tua falta todos os dias.
No fim de tarde de segunda. Na mesa do boteco sujo. No meio do show de Lulina. Quando acordei na quinta-feira. Quando fui dormir na quinta-feira. Dançando sozinha e repetindo versos de Chico. Quando acordei no sábado. Quando enjoei de trabalhar. Na loja de móveis. Na Serrinha. No cochilo de domingo. Quando acordei de um sonho bom. E agora.
É. Eu sei.
Tanto tempo e ainda não aprendi a me despedir.
Oct 17, 2009
“…mas se tu me perguntar como é [o sentimento], eu posso te mandar esse vídeo e dizer: é mais ou menos assim.”
Oct 4, 2009
“Diz que em Teresina tá uma noite linda com uma lua imensa e amarela. Diz que Aline, Rita e Anita almoçaram juntas hoje em Recife e que mais tarde deve ter uma festinha no Acre. Diz que no Rio de Janeiro tem um moço esperando pra tirar uma foto. Diz que Curitiba é uma cidade que eu preciso conhecer logo e que em algum boteco de Belo Horizonte tem um povo amigo tomando uma cerveja (…) Diz que até 2016 eles inventam o teletransporte.”
Sep 23, 2009
por Milly Lacombe.
“Quero acordar do seu lado num domingo de manhã e saber que não temos hora para sair da cama. E, depois, ir tomar café na padaria e ler o jornal com você. Quero ouvir você me contar sobre o trabalho e falar detalhadamente de pessoas que eu não conheço, e nem vou conhecer, como se fossem meus velhos amigos. Quero ver você me olhar entre um gole de café e outro, sem nada para dizer, e apenas sorrir antes de voltar a folhear o caderno de cultura. Quero a sua mão no meu cabelo, dentro do carro, no caminho do seu apartamento. Quero deitar no sofá e ver você cuidar das plantas, escolher a playlist no ipod e dobrar, daquele seu jeito metódico e perfeccionista, as roupas esquecidas em cima da cama. E que, sem mais nem menos, você desista da arrumação, me jogue sobre a bagunça, me beije e me abrace como nunca fez antes com outra pessoa. E que pergunte se eu quero ver um DVD mais tarde. Quero tomar uma taça de vinho no fim do dia e deitar do seu lado na rede, olhando a lua e ouvindo você me contar histórias do passado. Quero escutar você falar do futuro e sonhar com minha imagem nele, mesmo sabendo que eu provavelmente não estarei lá. Quero que você ignore a improbabilidade da nossa jornada e fale da casa que teremos no campo. Quero que você a descreva em detalhes, que fale do jardim que construiremos, e dos cachorros que compraremos. E que faça tudo isso enquanto passa a mão nas minhas costas e me beija o rosto. Quero que você nunca perca de vista a música da sua existência, e que me prometa ter entendido que a felicidade não é um destino, mas a viagem. E que, por isso, teremos sido felizes pelos vários domingos na cama e pelos sonhos que compartilhamos enquanto olhávamos a lua. Que você acredite que não me deve nada simplesmente porque os amores mais puros não entendem dívida, nem mágoa, nem arrependimento. Então, que não se arrependa. Da gente. Do que fomos. De tudo o que vivemos. Que você me guarde na memória, mais do que nas fotos. Que termine com a sensação de ter me degustado por completo, mas como quem sai da mesa antes da sobremesa: com a impressão que poderia ter se fartado um pouco mais. E que, até o último dia da sua vida, você espalhe delicadamente a nossa história, para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido a mais bela história de amor da sua vida. E que uma parte de você acredite que ela foi, de fato, a mais bela história de amor da sua vida. Que você nunca mais deixe de pensar em mim quando for a Londres, escutar Dream’ Bout Me ou ler Nick Hornby. E, por fim, que você continue a dançar na sala. Para sempre. Mesmo quando eu não estiver mais olhando.”