azar o seu, querida*

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top cinco hinos dos cuzões anônimos.

Pessoas amadas normalmente conseguem convencer seus admiradores a fazer o que elas desejam muito facilmente. Certas pessoas se aproveitam disso, e do meu visível gosto por tudo que tenha relação com música, e eis que aqui estou participando de mais um meme, que começou pra divulgar um serviço da Music Store da Tim [o povo ainda tem esperança de achar um jeito de fazer as pessoas comprarem música na internet].

A idéia dessa vez é listar cinco músicas e dar um sentindo pra essa seleção. Eu resolvi homenagear os Cuzões Anônimos. Mas calma. Não se trata de anônimos de uma forma geral. Os supracitados na verdade pertencem a uma associação: a associação dos tímidos incapazes de declarar o seu amor, a sua paixão, a sua vontade, o seu tesão, o seu interesse, o seu sentimento, enfim.

Nas palavras de um dos fundadores do movimento: “Basta uma olhada no espelho e lá estará o coração, todo escancarado, balançando de um lado para outro, preso por uma mola. E poucas palavras confirmam a situação: claro, existe uma paixão por trás disso tudo. E há a vontade de fazer as sensações transcenderem o isolamento. E daí você tenta abrir a boca para uma indireta ou declaração, e nada. E só na terceira tentativa você percebe os lábios costurados. Mas o pior é descobrir que o responsável por essa obra da alfaiataria sentimental é você mesmo, meu caro. Bem vindo ao clube: você é mais um CUZÃO ANÔNIMO. Os CUZÕES ANÔNIMOS, antes de mais nada, são crentes do amor. Eles desprezam todas essas teorias modernas que tentam diminuir a importância do amor romântico e monogâmico. O C.A. acredita na prática da felicidade a dois, com passeios de mãos dadas e sexo gostoso em tardes preguiçosas debaixo dos cobertores. Mas para que isso aconteça, é preciso que ele enfrente a si mesmo para conseguir expressar esses desejos à pessoa amada. Os C.A. são grandes amantes, mas são incompetentes na ‘área comercial’. (…) Além disso, os CUZÕES ANÔNIMOS são hábeis ficcionistas, pois sempre estão a inventar soluções para seus dilemas, que nunca passarão para o campo prático. Finais felizes para histórias que eles nem conseguiram dar início. Reciprocidades e indiretas (e mesmo diretas) da parte desejada surtem poucos efeitos, pois acabam acumuladas num depósito cheio de caixas com uma etiqueta com a dúvida ‘SERÁ?’ estampada. Uma dica para quem quiser conquistar um CUZÃO ANÔNIMO é utilizar um luminoso anunciando a sua intenção (recomenda-se também o nome e o sobrenome do incauto). Os CUZÕES ANÔNIMOS sonham com o desenvolvimento das ciências telepáticas. ‘Ah, se ela soubesse o que eu sinto agora, em um segundo estaria aqui implorando meus beijos’, sempre torcendo em silêncio para serem notados (…)”. [Ian Black in O Manifesto dos Cuzões Anônimos]

Pois bem. O fato é que eu sou uma C.A. minha gente. As pessoas não acreditam, mas é verdade. Sempre fui. Juro. Na quarta série fiz o meu melhor amigo apanhar por entregar uma carta minha [anônima] para o bruto dono do meu coração de infante, que despedaçou com fúria a missiva. Na quinta séria não foi muito diferente; demorei tanto tempo, mas tanto tempo pra chegar perto do menino que me dava dor de barriga, que quando finalmente começamos a conversar [na quinta série é o que se faz meu povo, se conversa] era fim de ano, férias, ele mudou de cidade e sumiu no mundo sem avisar. Na sétima série foi ainda pior, já que o moço também era um C.A. [sabe como é, tenho uma queda por sorrisos tímidos]. Nem preciso dizer o que aconteceu. Até porque não aconteceu nada. E isso definitivamente foi só o começo. As coisas hoje em dia melhoraram um pouco. Mas só um pouco. Ter coragem pra ligar e disfarçar bochechas vermelhas e tremedeiras no geral ainda não são tarefas fáceis, por exemplo. Já em diálogos imaginários e na entoação dos mantras “me liga, me liga, me liga” e “me beija, me beija, me beija”, posso me considerar gabaritada. E é com os poderes a mim concedidos pelos sei lá quantos beijos que eu não dei [shyness is nice/ and shyness can stop you/from doing all the things in life /you'd like to] que eu lhes apresento meu top cinco hinos dos cuzões anônimos.

5. berne_nas nuvens: foi por causa dessa singela canção, de uma banda paulistana que infelizmente já acabou, que eu fiquei conhecendo o C.A. Enfim eu não estava mais sozinha no mundo. “Eu não sei o que fazer/eu não sei o que vou ver/eu não sei o que falar/mas eu sei o que vou escrever” é bem o começo de tudo.

4. the postal service_such great heights: I am thinking it’s a sign/ that the freckles in our eyes are mirror images/… And I have to speculate/that God himself did make us into corresponding shapes/like puzzle pieces from the clay/(…)They will see us waving from such great heights/”Come down now”…/They’ll say/But everything looks perfect from far away/ “Come down now”… But we’ll stay. [“onomatopéia para suspiro” ai, ai]

3. belle&sebastian_simple things: as coisas não são nada simples, “i saw your arms in a dream”, “if you want me you know were i am” e “all you have to do is ask a thousamd questions” [mentira, uma só, a certa, já é suficiente].

2. the everly brothers_all I have to do is dream: enquanto isso tudo o que eu tenho que fazer é sonhar [When I want you in my arms/ When I want you and all your charms/ Whenever I want you/ All I have to do/ Is Dream... Dream Dream Dream/ When I feel blue/ In the night/ When I need you/ To hold me tight/ Whenever I want you/ All I have to do/ Is Dream... Dream Dream Dream/I can make you mine/ Taste your lips of wine/ Any time, night or day/ Only trouble is/ Gee Whiz/ I'm dreamin' my life away/ Oh I need you so/ That I could die/ I love you so/ And that is why/ Whenever I want you/ All I have to do/ Is Dream... Dream Dream Dream Dream]. A letra dessa música inteira é um hino c.a., e ela só não leva o primeiro lugar porque…

1.dashboard confessional_hands downs: a parte que diz “My hopes are so high that your kiss might kill me/ So won’t you kill me, so I die happy/ My heart is yours to fill or burst/ to break or bury/ or wear as jewelery/ Which ever you prefer” é de uma feladaputice que doi no coração de qualquer c.a. Ui.

cuzões anônimos s.a

ps.: Não há indicados dessa vez. Quem quiser participar do meme manda o link nos comentários e o post será atualizado.
pps.: Creep e Ask ficaram de fora dessa lista porque são indiscutíveis.
ppps.: “If there’s something you’d like to try…lálálá”

gentileza.

O tempo passou, a polêmica sobre a lei Cidade Limpa esfriou, eu formei a minha opinião a respeito e ainda se vê por aí estabelecimentos que ainda não se adequaram a lei e fachadas com “marquinha de biquíni”.

Mas eis que hoje, pelos caminhos tortos dos atrasados, cheguei ao seguinte artigo de João Wainer, publicado na Revista da Folha domingo passado, sobre o grafite, o prefeito e a tinta cinza:

Guerra do spray.
Grafiteiros acusam prefeitura de instaurar política antigrafite; governo diz que não há perseguição

[texto e fotos por João Wainer]

Depois de passar um mês na Escócia grafitando um castelo medieval construído em 1200, os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, 33 -conhecidos como Osgemeos-, e Karina Arcênio Pandolfo, 30, a Nina (mulher de Otávio), desembarcaram em São Paulo no último dia 16, sábado à tarde, e sofreram um choque de realidade. A prefeitura da cidade que durante toda a vida foi para eles uma enorme tela em branco hoje pinta sistematicamente de cinza os muros públicos grafitados pelo trio.

No domingo passado, ainda sob efeito do fuso-horário, Osgemeos e Nina juntaram-se aos também grafiteiros Ise e Koyo para pintar muros da cidade como fazem desde 1987, quando deram seus primeiros passos no grafite.

Nos pilares do viaduto Antártica, na zona oeste, Osgemeos desenharam uma série de cinco bonecos. Nina fez duas meninas com os cabelos ao vento enquanto Ise e Koyo escreveram seus nomes em letras estilizadas.

Os desenhos duraram menos de 16 horas. Nem bem a tinta secou e no dia seguinte as pilastras amanheceram cobertas de um tom acinzentado.

Num intervalo de quatro meses, essa rotina se repetiu sete vezes. Os grafiteiros pintavam seus desenhos nos pilares, que em seguida eram cobertos de cinza. Camelôs e transeuntes ouvidos pela reportagem afirmam que funcionários da prefeitura fizeram o serviço de cobertura.

O secretário da coordenação das Subprefeituras de São Paulo, Andrea Matarazzo, nega a perseguição aos grafites. “Não existe nenhuma política ou iniciativa nossa para cobertura de grafites; há, sim, uma rotina de limpeza da cidade. Acontece que os grafiteiros também têm uma rotina de pintar, por isso alguns podem ter sido apagados. Mas não quer dizer que foi a prefeitura que cobriu o grafite do viaduto Antártica, pode ter sido a empresa que a prefeitura contrata para pintar o viaduto, por exemplo”, diz.

O grafiteiro Ise discorda. “A gente sabe que a natureza do grafite é efêmera, mas uma coisa é ser apagado naturalmente, outra é uma campanha pública antigrafite como vem claramente acontecendo”, reclama.

Outros grafiteiros engrossam o coro dos descontentes. Finok, 21, teve tantas obras apagadas recentemente que pensou em parar de pintar na rua. “A prefeitura deveria gastar esse dinheiro com coisas mais importantes como saúde e educação”, afirma. “Posso assegurar que não há direção da prefeitura para cobrir grafite, temos coisas muito mais importantes para fazer”, diz Andrea Matarazzo.

Numa reação aos muros cobertos de cinza, alguns grafiteiros começaram a escrever ao lado dos desenhos frases de protesto contra o prefeito. Em uma parede da Vila Mariana, Iaco cravou: “prefeito vagabundo”. Perto dali, um outro desenho ilustra uma manifestação com faixas onde se lia “Kassa ao Kassab”.

Um dos sócios da galeria Choque Cultural -pioneira no trabalho com artistas de rua-, Baixo Rodrigues, 41, considera “censura artística” a ação da prefeitura e acredita que o governo municipal não tem noção do valor artístico nem monetário das obras que apagam.

“O valor dos artistas é dado pelo mercado, pelos museus, e os grafiteiros brasileiros são considerados no mercado internacional como alguns dos melhores do mundo. Esses grafites que estão sendo apagados são uma doação dos artistas para a cidade e têm de ser tratados como patrimônio artístico”, acredita.

O secretário Andrea Matarazzo confirma o desconhecimento: “Não sabemos o valor do grafite, e imagino que ninguém na prefeitura saiba”.

Pichação ou grafite?

O prefeito Gilberto Kassab deve sancionar em breve o projeto de lei aprovado por unanimidade na Câmara Municipal que institui um programa antipichação, cujo texto prevê que donos de imóveis com muros e paredes pichadas poderão obter recursos da prefeitura para pintar suas fachadas. O projeto, que nada tem a ver com a lei Cidade Limpa -é, inclusive, anterior a ela; data de 2005 e é de autoria de José Serra- também sugere a criação de parcerias entre o governo e empresas privadas que queiram fornecer material para cobertura de pichação.

O texto da lei, no entanto, não distingue pichação de grafite. “Não existe definição mesmo entre o que é grafite e o que é pichação no projeto de lei. Eu acredito que pichação são aqueles rabiscos ou hieróglifos. O grafite tem uma forma, um desenho e não degrada tanto o ambiente”, explica o secretário.

Enquanto a prefeitura apaga, outros contratam os mesmos artistas a peso de ouro. A escocesa Alice Boyle, filha do lorde de Glasgow Patrick Boyle, que convidou Osgemeos, Nunca e Nina para grafitar o castelo de Kelburn (www.thegraffitiproject.net), que pertence à sua família e é um dos mais antigos da Escócia, diz que qualquer cidade da Europa adoraria ter em suas paredes desenhos de artistas como eles.

“É um privilégio poder andar na rua e ver trabalhos com tanta qualidade. O povo não precisa ir às galerias para apreciar desenhos tão bonitos. Sempre ouvi falar dos grafites de São Paulo e acho que pintando-os de cinza o prefeito está impedindo uma ótima oportunidade de turismo para a cidade”, diz a escocesa.

Em fevereiro deste ano, os grafiteiros brasileiros Kboco, Speto, Titi Freak, Onesto, Boleta, Zezão, Highgraff e Fefe Talavera, ligados à galeria Choque Cultural, participaram de uma exposição coletiva na Jonathan Levine Gallery, em Nova York, dentro do projeto “Ruas de São Paulo: A Survey of Brazilian Street Art”.

Na galeria Fortes Vilaça, em São Paulo, todas as pinturas foram vendidas na exposicão da dupla Osgemeos, que durante dois meses no ano passado foi visitada por mais de 30 mil pessoas, batendo o recorde de visitação da galeria.

As palavras do secretario Andrea Matarazzo, porém, vão na contramão do mercado de arte. “Grafite que degrada o ambiente são dos da 23 de maio, por exemplo. Não combinam porque os viadutos têm uma cor, um jardim, e isso interfere na paisagem”, diz.

Crime

Apesar das dificuldades -e de o grafite ser considerado crime ambiental em São Paulo, com pena de três meses a um ano-, os grafiteiros seguem pintando nas ruas.

“Desde que começamos a Prefeitura de São Paulo sempre apoiou o grafite. Graças a essa liberdade, conseguimos desenvolver nosso estilo e pudemos viajar o mundo mostrando essa arte que foi criada nas paredes paulistanas. Por mais que nossos trabalhos estejam nas galerias, nunca vamos desistir de pintar na rua. Essa é a verdadeira essência do grafite”, dizem, em coro, os irmãos gêmeos. “Por mais que o novo prefeito apague, não vamos parar de mostrar para o povo de São Paulo nossa arte.”

Para Andrea Matarazzo, nem todo mundo aprecia esse tipo de manifestação. “Um cidadão pode não querer ter seu muro grafitado. É como alguém que não gosta de quadros em casa.”

Guilherme Aranha, 30, coordenador da juventude da atual gestão, acredita que São Paulo tolera mais o grafite do que outros centros urbanos. “É importante lembrar que nas grandes cidades do mundo o grafite não tem tanto espaço quanto em São Paulo. Em Madri, na Espanha, que conheço muito bem, não existe espaço para pintar na rua. Em Londres, então, eles seriam presos. Aqui, somos bem democráticos.”

Aranha afirma que a Coordenadoria da Juventude mantém um bom diálogo com os jovens que pintam na rua. “Temos conversa permanente com os grafiteiros. O Graphis já foi coordenador do projeto Galerias ao Ar Livre, que teve como última ação o grafite no túnel da Paulista, em 25 de janeiro. Outros que estão sempre conosco são Zeila, Eymard (coordenador do projeto Aprendiz), Nem e Nick.”

Questionados sobre os nomes citados pelo coordenador, os grafiteiros ouvidos pela reportagem afirmaram não conhecer nenhum deles.

grafite
17.06.07: Pilar do viaduto Antártica (antes); 19.06.07: pilar do viaduto Antártica (depois)

Tenho um gosto particular pelos grafites do Minhocão, do túnel que liga a Paulista à Dr. Arnaldo, e por vários outros espalhados por São Paulo e como apaixonada por cidades que sou acho que o assunto vale um debate: grafite é arte? Embeleza a cidade? Suja a cidade? O prefeito tem mais é que sair por aí pintando tudo mesmo? Os comentários estão abertos: opiniões por favor.

[+] fotos de Urban Art nacionais e internacionais feitas por Rafael Rubira
[+] site sobre Urban Art
[+] os gemêos
[+] graffiti.org
[+] vídeo da música Gentileza, de Marisa Monte [a música faz referência à José Datrino, personagem famoso no Rio de Janeiro. A história conta que em 1961, uns dias depois do incêndio do Circo Americano em Nitéroi, considerado uma das maiores tragédias circenses do mundo, Datrino recebeu um chamado divino e sua primeira missão foi consolar os parentes das vítimas, mudando-se para o local e transformando-o num jardim. Chamava a todos de “gentileza” e daí veio o apelido. Nos anos 80, pintou seus escritos nas pilastras do Viaduto do Caju. A obra resistiu às intempéries até o fim da década de noventa, quando começou a ser coberta por pixações e a Companhia de Limpeza Urbana cobriu tudo com cal, um ano depois da morte de Gentileza, em 1996. Em 2000, graças ao projeto Rio Com Gentileza [pra quem Marisa Monte compôs a música], os murais foram restaurados e hoje estão tombados como patrimônio da cidade.

caso a gente bata a cabeça e perca a memória.

Te peguei no aeroporto no meio de uma tarde muito azul. Pusemos as cervejas na sua mochila e vimos um belo pôr do sol, conversando sobre peixes, música, anarquia e sobre Jean-Paul Sartre e Simone De Beauvoir. Não existem tantas coisas assim tão bonitas quanto o teu semi-sorriso. Te mostrei o meu lugar preferido e fizemos um jantar/pic nic, onde o prato principal foi o melhor cachorro-quente do mundo. Descemos a rua Augusta. Os corações a 120 por hora. Uma cerveja em cada um dos botecos, até chegar no inferno. O show foi bom. E como dois hippies-punks-rajneeshs atravessamos a rua, porque a noite é uma criança. Não existem tantas coisas assim tão interessantes quanto ver você dançar fazendo cara de malvado. Quando ascenderam as luzes lembrei que o teu café da manhã tinha que ser no centro na cidade, porque gosto de te ver observar. Voltamos pra casa dia claro, feios, sujos e felizes, cruzando com os trabalhadores matinais pelas calçadas. O mundo inteiro acordar e a gente dormir. A partir de agora, eu tomo conta de você.

Nos “casamos” no bar, no fim de uma tarde muito laranja. O “padre” usava tranças e você estava linda de noiva, all star e sorriso. Na nossa festa, os amigos tocaram rock n’ roll a noite toda, e quando as pessoas começaram a dançar em cima da sinuca fugimos com nossos livros e discos pra um sítio com paredes pintadas a dedo e tinta guache. Nos divertimos invadindo casas antigas, dormindo nelas por uma noite como se fossem todas nossas, dançando debaixo da lua cheia ou tomando banho de cachoeira. Fizemos amor, bagunça, arte e diferença, e viajamos de mochila pelo mundo antes de seguirmos juntos os nossos caminhos diferentes. Fomos felizes a nossa maneira, como Jean-Paul Sartre e Simone De Beauvoir. Nunca nos separamos.

“they will see us waving from such great
heights, “come down now,” they’ll say
but everything looks perfect from far away,
“come down now,” but we’ll stay…”

as vezes de alice a.

Parágrafo 07: Uma noite que não tem mais fim.

Gostava de observá-la fumar. O cigarro estranho entre os dedos. O olhar parado no nada. O charme de uma daquelas atrizes francesas, trazido sabe Deus de onde. Os dedos longos. Gostava de observá-la. Desde o começo. Não sabia muito sobre ela. Nada, na verdade. Aparecera um dia desses, num fusca velho, com uma mala. Um lápis vermelho de pedreiro. Uma polaróide. Os dedos logos. Os cabelos muito escuros. A boca borrada. Os olhos também. Observava na esperança de que a qualquer momento informações sobre ela brotassem tatuadas em sua pele. Escritas em sua testa. O dia do aniversário. A cor preferida. Sabia apenas que não ficaria. Não por muito tempo. Imaginava uma despedida. All Tomorrow’s Parties como trilha sonora, talvez. Em homenagem a Nico. Era Nico quem ela fazia lembrar? Não conseguia decidir. Os cabelos muito escuros. Não conseguia distinguir. Apenas imaginava uma despedida. Um meio sorriso talvez. Mas ela sumiu tal qual surgiu. Num fusca velho. Com uma mala e um lápis vermelho de pedreiro. Sumiu no mundo. Sem avisar. Esqueceu umas canções. Jamais deixou que visse a polaróide. Jamais deixou que visse além dos olhos. Muito pretos. De vez em quando ouvia algumas daquelas canções e imaginava. Não com a saudade de quem tem amor. Não, não. Antes com a curiosidade de um telespectador de novela. De um leitor de romance sujo. Imaginava-a como a um personagem a quem o escritor havia de dar um destino. Os dedos longos. A boca borrada. Mas, ah, o telefone, o dia seguinte, a campainha não atrapalham sempre os melhores devaneios? Tinha mesmo que atender? Acordar? Abrir a porta?

[...]

_Alice?!?!
_Hoje eu matei um homem. Posso ficar por uns dias?

 

Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com datas, nomes, fatos e acontecimentos reais terá sido apenas o seu ponto de vista.

setenta e um. e contando.

a certeza da espera*.

Há momentos em que temos plena certeza de que alguma coisa – um encontro, um acontecimento, uma notícia – está prestes a acontecer. E que, a partir daquele momento, tudo se transformará. É o tempo da espera. Às vezes, quase instantâneo, outras vezes, longo e sutil. A espera é um estado obrigatório que se repete no cotidiano e na vida. Antecede euforia e celebração, prazer e surpresa, tristeza e felicidade. A espera não pode ser evitada, e por isso precisa ser aproveitada. A espera tem pouco de renuncia: ao contrário, ela tem força criada pelas expectativas, a incerteza que muitas vezes nos leva adiante, obrigando-nos à fazer opções. Na espera a única certeza é a de mudanças: da sala vazia que logo estará comleta, do silêncio que será rasgado por sons, das certezas que se tornarão lembranças, das partidas e chegadas que nos farão sorrir e chorar. A espera aparentemente passiva é um momento de plena atividade – silenciosa, interna, cheia de idas e vindas, hesitação e certezas. Enquanto se espera o futuro é viável. A espera é o anúncio do próximo passo, de um ponto a seguir.

*por Cláudia Jaguaribe para a Revista S/Nº 7.

young folks.


“Na noite em tomamos aquele banho de piscina, brincamos de esconde-esconde e molhamos toda a área comum do prédio, eu usava aquele jeans que a minha mãe detestava e a camiseta que um dia ele tirou do corpo pra me dar de presente. Havia nuvens cor-de-rosa de chuva no céu e eu me lembro que também roubamos bolo da cozinha. Todos nós. Embora fossemos todos conhecidos, não éramos todos grandes amigos. Nunca chegamos a ser. Não todos. Não como aquelas turmas de seriado americano ou comercial de férias de verão. Nunca chegamos a ser. Simplesmente nos encontramos. Amigos, conhecidos em comum. Mas pensando naquele banho de piscina numa noite dessas de ócio, quando se fuma um cigarro olhando pro vazio, me pareceu uma noite perfeita. Como um holy moment. E eu senti uma ponta de saudade. Engraçado como o tempo passa e diminui as imperfeições das épocas. A pressa e a angustia daqueles dias certamente eram outras. Mas se eu abrir os olhos e conseguir ver por entre a fumaça vou me lembrar que existiam. Urgentes. Exatamente como agora. Eu me lembro das roupas, mas não me lembro se foi antes ou depois do telhado. Na noite em que tomamos aquele banho de piscina também vimos as luzes da cidade da varanda do nono andar e era tudo muito diferente. Mas o que mais poderíamos fazer além de escolher? Esse caminho, ou outros. Essa paixão, ou outras. Essa profissão, ou outras. Banho de piscina ou tédio. Essa cidade, ou não. O que mais poderíamos fazer além de usar shorts emprestados do anfitrião? É engraçado como o tempo passa. Eu continuo querendo. Eu sempre quis. Eu continuo. Sigamos os caminhos.
_Você não tem medo? – perguntou ela, com os olhos arregalados e surpresos de menina, o frio na barriga.
_Não. – ele respondeu, com um sorrisinho, antes de pular.”

miaazaroseuquerida