azar o seu, querida*

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roadhouse blues.

Sabe qual foi a melhor parte dos últimos dias? Ouvir uma banda de blues que eu não sei o nome, num bar que eu não sei o nome. Eu sempre me lembro do meu avô em situações como essa, onde a música é a melhor parte, e é feita com vontade, e fico imaginando como deveria ser quando ele ainda podia tocar. Eu poderia tranquilamente viver disso; ouvir músicos e bandas que eu não sei o nome em lugares que eu não sei nome, pelo prazer de ouvir o prazer de tocar.
Sabe qual a minha mais nova palavra preferida? Afeto. A mim encanta a intimidade respeitosa que mora nas entrelinhas e que dá as caras no olhar que procura, seguido da pergunta interessada feita em voz baixa; está tudo bem? Sim. Acho que isso tem a ver com afeto. E afeto não só é uma palavra bonita, como me parece uma palavra tranqüila. O que é ainda melhor. Eu também adoro essa palavra: tranquila.
Sabe o que eu descobri noite dessas? Que ouvir “Dindi” e “Joana Francesa” algumas vezes antes de dormir espanta pesadelos. Experimenta pra você ver.
Sabe qual é a minha nova música preferida da semana? Aquela do The Moldy Peaches com os versinhos sobre desenhos animados.
Eu gosto de anos que passam rápido.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=mmNAB9WekwI]
“the future is uncertain/and the end is always near”

manifesto da mulher de 30.

[por Rita Wainer, originalmente publicado na revista Key #7]

“Faz frio na minha casa. Minha casa tem um vento que entra na janela do banheiro, passa debaixo da porta, atravessa o corredor, me pega no sofá e entra no coração. Faz frio no meu bairro. Faz frio na cidade inteira. É só o inverno. Passa. Tenho trabalhado muito. Faz muito tempo em que se trabalha muito. Depois vem as férias, então eu descanso, todo mundo descansa. Passa. Não tenho tempo pra nada. Assim como meus amigos não têm tempo para muita coisa. As pessoas trabalham muito, lembra? Sim, quando der tempo a gente se encontra, se fala, se diverte. Uma hora isso acontece. Menos que antes, quando eu tinha vida de gato. Um dia eu fico velha e terei mais tempo. Passa. O tempo passa. Acordo com vontade de ver coisas lindas. As coisas lindas estão em todos os lugares, no caminho do trabalho, na conversa jogada fora na hora do almoço, no beijo do namorado, dentro do ipod, na risada à toa. É só saber aproveitar. Quero mudar o mundo. Reciclo o lixo, desligo a torneira, ando a pé. Planto uma árvore. Pronto. As coisas podem ser mais simples do que parecem. Cansei de pichar muros, escrever em camisetas, atormentar o vizinho. Revolução de boutique. Fazer 30 anos me parece bom. Faz muita diferença saber que não é só você que sente frio, que não tem tempo, que as coisas lindas estão em todos os lugares e que você pode ajudar a mudar o mundo em casa e não no berro. É como estar no lugar certo, na hora certa. O corpo, a alma, a beleza, a maturidade. Pensar no futuro começa a fazer sentido. E a vida esta só começando. E ela também passa. E se transforma. Pelo jeito, sempre pra melhor.Balzac que me perdoe, mas as coisas mudaram.”

[...um piscar de olhos e lá estava eu discutindo obras de verdade, com engenheiros de verdade; arquiteta com um projeto pra coordenar. Abri os olhos de madrugada e vi, escrita em costas largas, a minha tranqüilidade sobre o que, aos meus olhos, pode simplesmente ser como será. Voltei a desenhar como quando era criança e faltando dois anos pr'os trinta percebo enfim a razão nas palavras de sempre da minha mãe, sobre exageros e coisas desnecessárias, sem, no entanto, perder a força do intenso. Dosar é a palavra. Ainda bem que as coisas mudam. Vontade de fotografar as pessoas na rua. É bom estar aqui.]

email.

“A bagunça invadiu o meu sono. Não se contentou em ficar rolando pela casa. Tampouco se contentou com as horas, mal distribuídas nas últimas três semanas, entre o trabalho, e todo o resto. Invadiu o meu sono. E aí tem um monte de coisas, bandas, sites, pessoas, vídeos, livros, fotografias, revistas e até situações, que eu gostaria de mostrar, ou sobre as quais eu quero falar, e não consigo. Fico aqui sentada no meu chão, ouvindo essas canções que entraram porta a dentro sem bater. E até ensaio escrever alguma coisa mais pessoal do que deveria, como nos velhos tempos. Sobre a câmera nova, sobre os presentes de aniversário, sobre envelhecer, sobre as novas percepções. Mas só ensaio. Fico aqui deitada no meu chão. Ouvindo essas canções. Aproveitando esse momento. Quieta. Quero ficar tão quieta quanto possível. Calma. Just listening…Às vezes penso que sou capaz de ficar aqui pra sempre. Mas eis que vem chegando o feriado.“

até o dia em que o cão morreu.

Até o dia em que o cão morreu, eu nunca me lembrava dos meus sonhos. Sonhava, é claro, mas as imagens do sonho não permaneciam na memória além daqueles poucos segundos após o despertar. Sempre duvidei de gente que me narrava sonhos de uma noite anterior, pra mim eram mentirosos. Desde aquele dia, contudo, tenho um sonho recorrente. Há pequenas variações, mas é o seguinte: estou deitado no colchão de casal do meu quarto, pelado, lendo uma tralha qualquer. Fecho o livro e me estico na cama, as pernas debaixo do cobertor, escutando apenas o zunido dos mosquitos. Uma pessoa deveria chegar a qualquer momento, tenho essa sensação, mas ninguém chega. A vista da janela é exatamente a mesma daquele apartamento – a água cinzenta do Guaíba, a chaminé da Usina, as ilhas e os prédios - , porém as cores são estranhas, muitos verdes e violetas, com raios piscando no horizonte. Fico deitado no colchão com as pernas esticadas e abertas em ângulo confortável, as mãos por trás da cabeça, deixando o pescoço inclinado o suficiente pra enxergar o céu. Sinto um tremor leve nos órgãos internos, o que imagino serem gases. As contrações ficam cada vez mais intensas, os órgãos se movem, o estomago quer trocar de lugar com o pâncreas. Minha pele esfria, e começo a transpirar um suor nojento. Entendo que algo fora do comum está acontecendo. Meu sangue dispara pelas veias, os órgãos enfurecidos se espremem contra o esqueleto. Uma protuberância começa a crescer perto das minhas costelas, do lado esquerdo, causando uma dor intensa, que irradia por todo o tórax e o abdômen. Grito por socorro, mas estou certo de que ninguém escuta. Tenho plena consciência de que estou e permanecerei sozinho. Enquanto o calombo cresce nas minhas costelas, como se o corpo tentasse expulsar um feto maligno, penso que é uma péssima idéia morar num apartamento tão alto, sem telefone, sem conhecer vizinhos. Tento gritar o nome de amigos, minha família, mas os gritos já não saem, e me dou conta de que faz tempo demais que não falo com nenhum deles, ou simplesmente não tenho intimidade o suficiente, não me sinto no direito de pedir ajuda a ninguém que me lembro de conhecer. A dor aumenta, tenho receio de desmaiar, ou morrer, e aquele calombo vai crescendo até se tornar uma extensão do meu corpo, a pele esticada, a carne se mexendo por dentro. A saliência assume formas complexas, e logo identifico nela um braço rudimentar, mãos, pernas atrofiadas que se desenvolvem com uma rapidez impossível. Surge também uma cabeça, um toco que se agita e apresenta gradualmente a proporções de um crânio humano. Não posso controlar meus movimentos, e quanto mais tento resistir ao processo, mais sofro. Os membros e a cabeça adquirem um aspecto adulto, e pequenos pelos escuros brotam daquela outra pele que surgiu da minha. Então, o desespero vai dando lugar a uma espécie de resignação. Entendo que seja lá o que for que esteja acontecendo, não está sob meu controle. Desejo apenas que acabe logo, que chegue às últimas conseqüências. A própria dor já não me incomoda, entro num transe que não é de sofrimento, e sim um torpor que fica mais agradável a cada segundo. Tremo, sinto as veias inchadas, e um formigamento agradável dá uma sensação de sono. Do meu lado, no colchão, a massa de carne que sai de mim se assemelha muito a um ser humano, o cabelo crescendo, dedos se dobrando, testando as articulações, um outro corpo que cresce a partir do meu em poucos minutos, os dois ainda unidos por um istmo de carne, que vai diminuindo de espessura até se romper num estalo. Finalmente, há dois indivíduos deitados sobre o colchão, desacordados e idênticos um ao outro. O mais estranho é que, a essa altura, já observo isso de fora. Dois sujeitos idênticos a mim, e nenhum dos dois sou eu. [Daniel Galera]

my so called life and me me me.

Já faz uns dias que eu tento escrever e dar notícias. Mais ou menos o mesmo tanto de dias que eu fiquei com aquela vontade de ir ao porão do Lou quebrar uma cara na arena do Clube da Luta. Igualzinho o Edward Norton fez com o Jared Leto, antes dele virar emo e tudo o mais. Mas pra quê essa violência toda, não é mesmo minha gente? Muito mais saudável, adulto e quiçá mais feminino sorrir e dizer “I never did mind about the little things”, com Nina Simone de trilha sonora. Ou, senão, muito mais saudável, adulto e tudo o mais fazer uma cara blasé e mandar se fuder. Tomar no cu. Essas coisas. Estou tendo aulas com meu caro amigo Ian Marquinhos José Enloucrescendo Black Câmara. Como mandar se fuder, tomar no cu e outras coisas de baixo “escalão” quando necessário, com classe e sem culpa. Just watch and learn. Enfim. Meus impulsos violentos passaram. Já podemos conversar. Agosto também passou, levando com ele o dia 21 mais uma vez. E passou tão rápido que nem deu tempo pro post clássico, com o clássico trecho do clássico texto de Caio Fernando Abreu [Isso me lembra que uma vez a minha amiga Fernanda me agradeceu por todo fim de ano mandar a mesma música pra desejar um ano bom. Eu sou repetitiva às vezes, mas tem gente que gosta, viu?!]. Tão rápido que agora já faz um mês desde aquele dia [noite] que eu “lembrei” de uma das músicas do Julian que eu mais gosto, e que passei o mês inteiro ouvindo, e eu continuo sem entender muito bem o episódio. Na verdade talvez a palavra certa não seja “entender”, mas “compreender”. Ou talvez seja mesmo porque eu não tive muito tempo pra pensar no assunto e, então, entender e compreender e tudo o mais [e talvez por isso de vez em quando ainda pense que não precisava ter sido do jeito que foi depois]. Também não tive tempo de começar – publicamente – a contagem regressiva pro meu aniversário. Não tive tempo sequer pro inferno astral nosso de todo ano [iu-huu, você está aí querido?]. Porque acontece que eu pedi tanto e tanto por trabalho, que universo, anjo da guarda, guias e orixás atenderam e mandaram tudo de uma vez. E não estou reclamando! Pelo contrário. Tenho trabalhado feliz e contente, em média umas dez horas por dia [com picos de doze e alguns fins de semana inclusos] e quero mais. E nem me importo muito com a pilha de livros que estou lendo calma e lentamente, ao invés de num pulo, como de costume. Nem me importo muito com os quatro filmes que estão no HD desde junho, e que se eu não vi em julho muito menos vou ver agora. Nem me importo muito de estar dormindo pouco e de ter dito sim tão rápido. Está valendo a pena, vai valer mais e jajá terei tempo, quarto e vida um pouco mais organizados. Eu. Eu. Eu. Acho que vou me dar “o” presente de aniversário. Faltam apenas 18 dias agora. E além do ingresso pro show do Nouvelle Vague, comemoração da noite oficial [que já tá na mão, né Dea?], eu só preciso agora de um lugar onde caiba as trinta e poucas pessoas que estão por perto [sim, porque têm mais outras trinta e poucas espalhadas por Teresina, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife que se eu pudesse mandava buscar] e que eu gostaria de convidar pra festa que eu pretendo dar, se eu encontrar um lugar. O resto é mar. É saudade de pessoas queridas [eu quero a minha mãe!]. É a lembrança da festa de despedida da Ana Bean no Milo, que deixou meu pé doendo de tanto dançar, meu bolso vazio de tanta Heineken e ainda por cima me mostrou duas coisas importantes. É o livro da Miranda que o Igor me deu. São as músicas que eu ando ouvindo e a minha paixão tardia por Arctic Monkeys . É a receita de risoto que o Lucas me deu e eu quero testar logo. É o meu não tão recém-descoberto assim, mas crescente, interesse pela cidade de São Francisco. É a espera pelo Tim e pela Mostra de Cinema. As fotos que eu talvez faça na terça. A Camis rindo das minhas desgraças. O melhor suco de morango do mundo, que eu mesma fiz hoje. O apartamento de pernas por ar. As roupas que eu sempre esqueço na máquina de lavar. O show de lançamento do cd do Ecos Falsos que eu não posso perder. O sobe e desce das temperaturas paulistanas. E, a quem interessar possa, a minha tradicional lista de presentes que me deixariam muito feliz no meu aniversário ou em qualquer outro dia. Tipo, amanhã. Rá.
01. F. i . l . m . e . s
02. L. i . v . r . o . s
03. C . a . m . i . s . e . t . a . s
04. P . o . s . t . e . r . s d . e F . i . l . m . e . s
05. Coisas cheirosas de pitanga, maracujá e castanha.
06. Uma conta pró no flickr
07. Um Allstar preto
08. Cadernos sem pauta + lápis de cor
09. Filme instantâneo Polaroid 600
10. Uma bolsa amarela, grande.
Bônus track: minha tatuagem nova. Ai.

o piauí e o presidente da phillips.

[Num momento de intervalo no meio dos dias muito, muito, muito corridos]

Tá. Vamos lá. Mais uma vez. Suspiro. Mais uma vez uma polêmica sobre alguma coisa que disseram/fizeram sobre/para o Piauí. Como daquela vez que esqueceram de colocar o Piauí no mapa de um livro tal. Ou como aquele texto daquela moça da Folha sobre o Dom Barreto e o ENEM e tudo o mais. Dessa vez o senhor Paulo Zottolo [só eu percebi que o nome já diz tudo?], presidente da Philips na América Latina e criador daquele movimento, Cansei, deu uma entrevista pra um jornal dizendo que blá-blá-blá-“Não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir, ninguém vai ficar chateado”. Bom, um monte de gente ficou chateada com a declaração do moço. O governador do estado inclusive disse que blá-blá-blá-Presidente-Lula-se-posicione-quanto-a-esse-deboche. No momento em que eu soube dessa celeuma toda, às onze da noite, depois de uma jornada de doze horas de trabalho, desenhos, normas de acessibilidade e tudo o mais, caindo de sono e vesga de cansaço eu confesso que não dei muita bola. Mas como neta do Equador que sou procurei me interar das notícias assim que o meu cérebro voltou a funcionar e, minha gente, eu me preocupo. Me preocupo com o meu estado. Me preocupo, conhecendo todas as suas qualidades e todo o seu potencial como conheço, por saber até onde ele pode chegar e por vê-lo avançar tão pouco, por falta de dinheiro, ou de vontade política ou dos dois. Me preocupo porque gostaria que as pessoas de fora conhecessem as coisas boas do lugar, que soubessem das vantagens, e que as pessoas de dentro continuassem trabalhando, por mais coisas boas, mais vantagens, mais desenvolvimento, pro estado crescer e aparecer, no bom sentido. Me preocupo porque acho, de verdade mesmo, que “presidente Lula se posicione quanto a esse deboche” é uma perda de tempo, e que na verdade a retratação do moço é que tanto faz como tanto fez, quando temos tantas outras coisas infinitamente mais importantes do que o presidente da Philips com as quais nos preocupar no Piauí. Me preocupo com o meu estado, porque é o meu berço, é de onde eu vim, é a minha raiz, e me interessa. O meu estado me interessa. A opinião das pessoas do meu estado sobre o nosso estado, e conseqüente a vontade que essas pessoas têm de ver o estado crescer e sua colaboração pra isso, me interessa. Já pra livros de geografia editados ou revisados, sei lá, por pessoas que não estudaram geografia básica, jornalistas que gostam de fazer-a-polêmica, e pra opinião do presidente da Philips, que não deve nem saber o que é chamar pro limpo, frankly my dear, i don’t give a damn [ou, traduzindo, não dou nem confiança].
E tenho dito e pronto.
[Fim do intervalo no meio de dias muito, muito, muito corridos]

miaazaroseuquerida