azar o seu, querida*

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subject: domingo.

“Diz que em Teresina tá uma noite linda com uma lua imensa e amarela. Diz que Aline, Rita e Anita almoçaram juntas hoje em Recife e que mais tarde deve ter uma festinha no Acre. Diz que no Rio de Janeiro tem um moço esperando pra tirar uma foto. Diz que Curitiba é uma cidade que eu preciso conhecer logo e que em algum boteco de Belo Horizonte tem um povo amigo tomando uma cerveja (…) Diz que até 2016 eles inventam o teletransporte.”

O que eu quero de você.

por Milly Lacombe.

“Quero acordar do seu lado num domingo de manhã e saber que não temos hora para sair da cama. E, depois, ir tomar café na padaria e ler o jornal com você. Quero ouvir você me contar sobre o trabalho e falar detalhadamente de pessoas que eu não conheço, e nem vou conhecer, como se fossem meus velhos amigos. Quero ver você me olhar entre um gole de café e outro, sem nada para dizer, e apenas sorrir antes de voltar a folhear o caderno de cultura. Quero a sua mão no meu cabelo, dentro do carro, no caminho do seu apartamento. Quero deitar no sofá e ver você cuidar das plantas, escolher a playlist no ipod e dobrar, daquele seu jeito metódico e perfeccionista, as roupas esquecidas em cima da cama. E que, sem mais nem menos, você desista da arrumação, me jogue sobre a bagunça, me beije e me abrace como nunca fez antes com outra pessoa. E que pergunte se eu quero ver um DVD mais tarde. Quero tomar uma taça de vinho no fim do dia e deitar do seu lado na rede, olhando a lua e ouvindo você me contar histórias do passado. Quero escutar você falar do futuro e sonhar com minha imagem nele, mesmo sabendo que eu provavelmente não estarei lá. Quero que você ignore a improbabilidade da nossa jornada e fale da casa que teremos no campo. Quero que você a descreva em detalhes, que fale do jardim que construiremos, e dos cachorros que compraremos. E que faça tudo isso enquanto passa a mão nas minhas costas e me beija o rosto. Quero que você nunca perca de vista a música da sua existência, e que me prometa ter entendido que a felicidade não é um destino, mas a viagem. E que, por isso, teremos sido felizes pelos vários domingos na cama e pelos sonhos que compartilhamos enquanto olhávamos a lua. Que você acredite que não me deve nada simplesmente porque os amores mais puros não entendem dívida, nem mágoa, nem arrependimento. Então, que não se arrependa. Da gente. Do que fomos. De tudo o que vivemos. Que você me guarde na memória, mais do que nas fotos. Que termine com a sensação de ter me degustado por completo, mas como quem sai da mesa antes da sobremesa: com a impressão que poderia ter se fartado um pouco mais. E que, até o último dia da sua vida, você espalhe delicadamente a nossa história, para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido a mais bela história de amor da sua vida. E que uma parte de você acredite que ela foi, de fato, a mais bela história de amor da sua vida. Que você nunca mais deixe de pensar em mim quando for a Londres, escutar Dream’ Bout Me ou ler Nick Hornby. E, por fim, que você continue a dançar na sala. Para sempre. Mesmo quando eu não estiver mais olhando.”

F/2009: o meio.

Teresina me confunde com esse colo de mãe e aconchego de família; com os reencontros com alguns dos meus mais queridos amigos da vida inteira, com alguns desses lugares, casas e ruas das quais eu sinto saudade, com a melhor das festas de aniversário dos últimos tempos, com o melhor abraço do mundo de sempre, com a declaração de amor que eu nunca vou esquecer, com as coisas que quero fazer aqui e não consigo, com as pessoas que quero ver aqui e não dá certo, com o calor, com esse tempo que não passa, com essas lembranças tão valorizadas, com essas algumas coisas que não mudam, com essas outras que mudaram tanto, com essa sensação de sempre que eu não consigo explicar nunca.
Teresina faz do meu coração um pandeiro.
Mas eu volto pro Natal.

F/2009: o ínicio

Os dias de Rio de Janeiro tiveram cheiro e gosto de surpresa boa.
Cheiro e gosto de caldo de cana, copos roubados por engano e vista pra floresta da Tijuca. Gosto de inesperado, passeio na Lagoa, almoço no Leblon. Cheiro, gosto e textura de carnaval, com trilha sonora francesa – um sonho. Os dias no Rio de Janeiro tiveram cheiro de mar, areia de Ipanema e Copacabana, chuva na Lapa, karaokê na Maldita, um boteco qualquer e algumas das melhores companhias. Foram dias com brilho nos olhos e sorrisos fáceis; a observação de como é incrível o prazer que mora nas coisas simples, nos dias de sol, nas novas e velhas amizades, nos amores correspondidos, nos encontros e reencontros. Os dias no Rio de Janeiro tiveram gosto de cerveja, pêra, salada mista, mojito, camarão, toblerone, biscoito globo, creme de galinha, sorvete de coco e pudim de leite. Gosto de quero mais. Gosto, cheiro e textura de quero mais.
O Rio de Janeiro continua.

as canções que você fez pra mim.

“After that it got pretty late, and we both had to go, but it was great seeing Annie again. I… I realized what a terrific person she was, and… and how much fun it was just knowing her; and I… I, I thought of that old joke, y’know, the, this… this guy goes to a psychiatrist and says, “Doc, uh, my brother’s crazy; he thinks he’s a chicken.” And, uh, the doctor says, “Well, why don’t you turn him in?” The guy says, “I would, but I need the eggs.” Well, I guess that’s pretty much now how I feel about relationships; y’know, they’re totally irrational, and crazy, and absurd, and… but, uh, I guess we keep goin’ through it because, uh, most of us… need the eggs.”

[sem título]

“(…) E sinto falta de escrever pra você. Mas não sei como fazer agora que você não existe mais.”

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