azar o seu, querida*

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para gabito.

Úrsula tinha razão: o tempo não passa, anda em círculos.

sem título nº12

“Querida Flor,
Guardas o meu coração.
Como seria então possível não me apaixonar? Pelos teus verdes e azuis, vermelhos, amarelos e laranjas. Pelas tuas curvas e elevações. O brilho do mar nos teus olhos. O sol no teu céu. Guardas o meu coração. E como então não ouvir, repetidamente e num querer de para sempre, essas canções que nos acompanharam até aqui? Tuas músicas. Tuas vozes. Teus barulhos. Tuas gírias. Trilha sonora. Guardas o meu coração. Os meus [teus] olhos. A minha [tua] boca. Guardas agora um meu querer. Os meus diálogos imaginários. As borboletas em festa da minha barriga. As palavras, ditas e não ditas por nós. As melhores idéias. As maiores vontades. Guardas o meu desejo. Inteiro. Intenso. Só pra ti. Querida Flor. Guardas o meu coração. E sendo assim guardas também a minha dúvida, a minha urgência, a minha saudade, o meu não saber. E quem saberá? Guardas o meu coração. As mãos dadas. As festas nas ruas. A tranqüilidade do cotidiano. O amor em quartos de hotel. O sorriso fácil e tão simples. A embriaguez. As fotografias. Os fogos de artifício. As possibilidades. O que há de vir, se haverá de vir.
Querida Flor.
Guardas o meu coração?
Com cuidado.
E bem querer.

Da tua.”

trecho.

“E aí eu acordei com essa vontade insuportável de banho de mar e fotografias no parque de diversões e com a lembrança doída de que não vou ao cinema há meses. E aí eu dormi de novo e tu me pediu em casamento com um daqueles anéis vagabundos, brinde de chiclete. Eu disse sim. Sim. Eu queria me chamar Maria. Ou Sophia. E me mudar pra outro lugar”
por Marilia Hawk.
foto: Marilia Hawk

1206

Presente de véspera
Por Marcos VP

A você que passou anos sem saber o que era isso. A você que vai passar anos sem saber novamente. A você que nunca soube o que era ter um par nesse dia e a você que nunca soube o que era ficar sozinho nessa data. A você que é romântico, a você que detesta romance, a você que assistiu a Ana Maria Braga recitar o inédito Soneto da Fidelidade, de Vinícius com o Louro José cantando “More Than Words” ao fundo, hoje de manhã. A você que gosta de flores e a você que não pode comer bombons. A você que vai ganhar um carro, a você que só pode dar um abraço. A você, que namorou a Flávia Alessandra no Norte Shopping e a você que namora a caixa do Carrefour do mesmo shopping.A você que acha que amar é difícil e a você que acha que não amar é impossível. A você que chorou sob as estrelas de saudade do que não tinha. A você que arrumou uma namorada na véspera e já teve prejuízo. A você que vai arrumar uma namorada amanhã e vai lamentar não ter dado um presente. A você que acha que isso é apenas uma data comercial e a você que acha que qualquer ocasião, mesmo as especiais, são ótimas para namorar. A você que está pensando em se separar, a você que tem medo de perder o outro. A você que guardou o álbum “amar é…” e a você que acha que “amar é…” é apenas quando o mar sobe. A você que lutou muito para conquistar seu amor e a você que um dia, teve uma pessoa especial caindo direto em seu colo.

A todos os que planejaram mil e uma coisas e choveu na hora e aos que arriscaram sair na chuva e encontraram o pote de ouro no final do arco-íris; aos que esqueceram o presente e aos que exageraram na dose; aos que irão ao encontro com uma roupa ridícula e aos que só pensam na hora de tirá-la; Aos que estão amando loucamente a namoradinha de um amigo e aos que só vão gostar de quem gosta deles; Aos que estão do outro lado do mundo e aos que estão do outro lado da rua. Aos que ligam para o outro compulsivamente e aos que preferem encontrar que ligar; aos que morrem de ciúmes e aos que morrem de insegurança porque o outro não sente ciúmes. A todos os que tem que escalar muros e subir em balcões e que roubariam sua amada se pudessem e aos que são os genros e noras preferidos.

A você que leu todos os livros de Shakespeare e a você que leu todas as revistas Sabrina. A você que viaja com Chopin e a você que comprou o último disco daquele grupo de pagode para dar de presente. A vocês que passam o ano esperando por esse dia e aos que passam o ano sofrendo com a proximidade dele. Aos que pensam no amor como uma grande diversão e aos que o encaram como um sacerdócio cheio de sacrifícios. A você que acha que o amor é apenas uma não-isolada substância química e a você que acha que o amor é um mistério de Deus.

A você que simplesmente ama.

E a todos os que, como eu, acham “namorada” a palavra mais bonita do mundo.

[Texto publicado originalmente em 12.06.03 no Pirão Sem Dono. A dica foi da querida Patrícia Köhler, uma das colaboradoras do blog Cintaliga]

“Minha mãe, Linda.”

Filha de Linda e Paul, a fotógrafa Mary McCartney aceita o convite de Vogue e faz um relato pessoal e revelador sobre o trabalho de sua mãe, em exposição na galeria James Hyman, em Londres, até 19 de Julho
linda mccartney.
Boa parte das lembranças que tenho de minha mãe são dela fotografando. Quando era criança em Londres, costumava segui-la até o laboratório montando em um dos quartos de nossa casa e ficar observando-a revelar as fotos. Era mágico acompanhar as imagens em preto e branco surgirem no papel, ali na minha frente. Ela tinha um estilo único, relaxado e elegante ao mesmo tempo, que deixava qualquer fotografado à vontade. Também era muito pé no chão, tranqüila, tinha uma delicadeza que não intimidava – características essenciais na hora de criar o tipo de imagem que lhe interessava.
Mas foi só depois dos 20 anos, quando também virei fotógrafa, que realmente aprendi a apreciar a habilidade técnica de minha mãe. Acho que não percebi antes o quão talentosa ela era porque sempre parecia tudo parecer facílimo, além de trabalhar com extrema rapidez. Quando alguma coisa chamava sua atenção, ela construía a cena na cabeça e tirava a foto quase por reflexo. Logo que comecei a fotografar, me dei conta de como era difícil focar, ajustar o fotômetro e a velocidade – tudo ao mesmo tempo – para capturar um momento que, se eu não fosse hábil o suficiente, poderia desaparecer para sempre. Mas minha mãe dificilmente perdia uma oportunidade. Mesmo quando não tinha sua câmera em mãos, dizia que estava capturando a imagem com sua “câmera da alma” – ela devia ter um milhão de fotos maravilhosas guardadas ali dentro.
Ao longo de sua vida, minha mãe se deparou com muitas coisas visualmente interessantes. Sua carreira começou como fotógrafa de rock, fazendo retrato de gente como Rolling Stones, Jim Morrison, Janis Joplin e Jimmy Hendrix, simplesmente porque ela era apaixonada por música e interessada em tirar fotos dos músicos que admirava. Algumas dessas imagens estão na histórica primeira edição da Rolling Stones Magazine, de 1967.
Depois que se casou com meu pai – e sobretudo depois que nascemos – ela foi se voltando mais pra fotografia de arte, lançando livros e montando exposições em galerias ao redor do mundo, que incluíam imagens de todos os seus interesses: animais, paisagens, objetos que lhe chamaram a atenção em viagens, momentos familiares…A câmera estava sempre por perto. Ela gostava de imagens reais – nada muito manipulado parecia lhe interessar – e tinha como mestres Dorothea Lange e Edward Steichen.
stella maccarney by linda maccartney.
Há uma foto especial nessa exposição na James Hyman Gallery, de meu pai e minha irmã Heather, que foi tirada em Cliveden, na Inglaterra. Cada um está em um canto da foto, com um jardim entre eles. Para mim ela é atemporal, linda, sempre fico feliz quando a vejo. As fotos que minha mãe tirava sempre refletiam calor, ternura. Ela conseguia captar isso nas pessoas. E também tinha um grande senso de humor, como fica evidente na foto da garotinha cheia de atitude usando uma viseira, minha irmã Stella. Atrás dela, penduradas na parede como se fossem um quadro de avisos, mensagens que meus pais consideravam importantes. Uma de minhas imagens favoritas da exposição foi tirada na Escócia. É uma foto lindamente composta, que mostra meu irmão James pulando da capota de um carro, enquanto meu pai se equilibra na cerca de madeira. Até o cachorro ao fundo está perfeitamente posicionado, como se estivesse posando.
paul mccartney e james mccartney by linda maccartney
Em 1997 minha mãe foi convidada para tirar fotos no estúdio do pintor Francis Bacon, em Londres, antes de ser desmontado e remontado na Irlanda. Era uma sessão noturna, cheia de atmosfera, e a luz da noite deu um toque sombrio às imagens…Embora costumasse fotografar com a máquina em punho, uma Nikon 35mm, nessa ocasião ela preferiu usar uma câmera de grande formato, colocada sobre tripé. Depois que terminou de fotografar o estúdio, deslocou a câmera até a sala de estar e fez um auto-retrato, em que aparece refletida no grande espelho que havia ali. Ela fez a foto da porta, de frente para um busto de William Blake. Ela também gostava de fazer auto-retratos em que aparecia através de suas sombras. O que faz parte da exibição me deixa feliz e triste ao mesmo tempo. Sinto como se a sombra fosse começar a se mexer, e ela, entrar na sala e me fazer sorrir.

linda mccartney, auto-retrato.
*Originalmente publicado em Vogue #358, Junho de 2008
**Para Rita Prado.

pictures of you.

“Fui eu que roubei todas as tuas fotografias. Numa sexta-feira dessas em que estavas no botequim. Quase todas. As polaroids, deixei onde estavam. Essas eu não quis. As outras todas levei comigo. E estudo agora o pedido de resgate, enquanto analiso todos os teus olhos e todas as tuas bocas e todas as tuas expressões. Todos esses dias. Uma vez te pedi. Tu disse: todos. Posso provar. Posso cobrar. Eu te proponho.”

pictures of you.

ouvindo: pictures of you/the cure

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miaazaroseuquerida