azar o seu, querida*

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copa do mundo/2010

O futebol parte o meu coração.
Ainda bem que existe a música pra emendar.

brasil x costa do marfim

Você não sabe, mas quando eu choro aleatoriamente vendo o futebol no bar é em Francisco que estou pensando. É em Francisco que eu penso quando acredito na seleção. E é Francisco que eu penso todos os dias, quando acordo. É em Francisco que eu penso quando alguma coisa dá certo, ou quando tudo dá errado. Quando faltam as forças ou quando as forças são necessárias, é em Francisco que eu penso. Você não sabe, mas eu nunca comprei uma tv porque, dez anos depois, ainda dói ver o Jornal Nacional sem Francisco. (…)

bliss.

[por Katherine Mansfield]

“Embora Bertha Young já tivesse trinta anos, ainda havia momentos como aquele em que ela queria correr, ao invés de caminhar, executar passos de dança subindo e descendo da calçada, rolar um aro, atirar alguma coisa para cima e apanhá-la novamente, ou ficar quieta e rir de nada: rir, simplesmente.

O que pode alguém fazer quando tem trinta anos e, virando a esquina de repente, é tomado por um sentimento de absoluta felicidade — felicidade absoluta! — como se tivesse engolido um brilhante pedaço daquele sol da tardinha e ele estivesse queimando o peito, irradiando um pequeno chuveiro de chispas para dentro de cada partícula do corpo, para cada ponta de dedo?

Não há meio de expressar isso sem parecer “bêbado e desvairado?” Ah! como a civilização é idiota! Para que termos um corpo, se somos obrigados a mantê-lo encerrado em uma caixa, como se fosse um violino raro, muito raro?”

Planeta Terra 2009: em particular.

Querido João,
Às vezes, em noites como essa, em que essas tais sensações boas, mas que eu desconheço o nome, me levam às lágrimas eu penso em você e me pergunto se não fiz tudo errado na vida. Eu podia ter sido mais talentosa e criativa. Eu podia ter fugido com o circo aos oito, como planejado, e depois, podia ter me casado aos dezenove, com o primeiro maluco que me propôs e me ofereceu uma viagem de fusca pela Bahia de lua de mel. Eu podia ter tido competência pra aprender a tocar pelo menos um instrumento. Eu podia ter aprendido a pintar, a fotografar de verdade, a andar de bicicleta, a dirigir direito. Eu podia ter dado mais orgulho pra minha mãe. Eu podia ter decepcionado menos as pessoas. Eu podia ter dito “não” mais vezes; e podia ter mandando à merda muito mais pessoas, como você fez. Eu, seu coração, podia ter batido mais forte. Podia ter feito mais feliz. Eu penso em você e sempre percebo que sou apenas eu. Aqui, nessa chuva, com os olhos marejados e ouvindo as guitarras. Sou apenas eu; sozinha. Com essa família tão grande que você começou com a mulher mais forte que se tem notícia, e que é a minha base pra tudo; com a mãe maravilhosa e com o melhor pai que podia existir, ambos feitos por vocês, pra mim; com os meus irmãos, os de sangue e os de coração; com as outras famílias, que eu considero, mesmo sem “conta sanguínea”; com os meus amigos tão queridos, inclusive os que eu perdi; com todos os homens que eu amei, mesmo os que não me amaram de volta; com toda a companhia das incontáveis pessoas conhecidas em trinta anos, as que ficaram e as que passaram; com todas essas músicas alheias; com todo esse amor, imenso; com essas pernas, curtas demais pra abraçar o mundo; com esses olhos muito míopes pra enxergar tudo com clareza, imediatamente; com esses quereres demais pra uma vida só. Apenas eu, sozinha com o mundo. Não pelo mundo, mas porque é assim que é. Eu e o seu sangue correndo nas minhas veias.
Sinto saudades do seu sorrir.
Com amor.

Ju

[sem título]

Dear,
Na semana que acabou de passar eu comecei dois trabalhos novos. Fui num show de samba. Me sentei numa mesa naquele boteco sujo com aquele compositor famoso, sambistas, produtores e amigos. Dudu Nobre passou pra dar um alô. Conheci uma mulher dama que me garantiu que somos, todos, a imperfeição do mundo. Almocei com uma amiga querida. Tomei sorvete de graviola. Finalmente vi um show de Lulina e cantei junto com todas as outras moças do lugar. Recebi aquele telefonema e ouvi aquele sotaque que eu adoro por quase uma hora. Esperei por um email que nunca veio. Assisti uma comédia romântica pra tentar chamar o sono. Tive um dia cheio e com horários, como os que eu não tenho desde agosto. Fiz um teste. Coloquei uma flor no cabelo e fui ouvir um moço chamado Tibério Azul cantar Chico Buarque no meu lugar preferido. Sorri a noite toda. Dancei; sozinha e com um estranho simpático que me rodopiou no ar. Dormi até tarde. Paguei as contas e o domínio pra botar o meu bloco na rua. Trabalhei. Comprei uma cadeira nova. Conheci um lugar incrível, que eu adoraria te mostrar. Comi o melhor nhoque do mundo. Tive um domingo perfeito com três dos meus melhores amigos e quis, com todas as forças, me mudar pruma casa no campo, com meus discos, meus livros, meus amigos, um cachorro chamado Tim Maia, e nada mais. Me embriaguei com vinho artesanal. Sonhei com o melhor email do mundo; que nunca veio.
Foi uma semana incrível.
E eu senti a tua falta todos os dias.
No fim de tarde de segunda. Na mesa do boteco sujo. No meio do show de Lulina. Quando acordei na quinta-feira. Quando fui dormir na quinta-feira. Dançando sozinha e repetindo versos de Chico. Quando acordei no sábado. Quando enjoei de trabalhar. Na loja de móveis. Na Serrinha. No cochilo de domingo. Quando acordei de um sonho bom. E agora.
É. Eu sei.
Tanto tempo e ainda não aprendi a me despedir.

Subject: Re: notícias?

“…mas se tu me perguntar como é [o sentimento], eu posso te mandar esse vídeo e dizer: é mais ou menos assim.”

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