copa do mundo/2010
O futebol parte o meu coração.
Ainda bem que existe a música pra emendar.
O futebol parte o meu coração.
Ainda bem que existe a música pra emendar.
Você não sabe, mas quando eu choro aleatoriamente vendo o futebol no bar é em Francisco que estou pensando. É em Francisco que eu penso quando acredito na seleção. E é Francisco que eu penso todos os dias, quando acordo. É em Francisco que eu penso quando alguma coisa dá certo, ou quando tudo dá errado. Quando faltam as forças ou quando as forças são necessárias, é em Francisco que eu penso. Você não sabe, mas eu nunca comprei uma tv porque, dez anos depois, ainda dói ver o Jornal Nacional sem Francisco. (…)
[por Katherine Mansfield]
“Embora Bertha Young já tivesse trinta anos, ainda havia momentos como aquele em que ela queria correr, ao invés de caminhar, executar passos de dança subindo e descendo da calçada, rolar um aro, atirar alguma coisa para cima e apanhá-la novamente, ou ficar quieta e rir de nada: rir, simplesmente.
O que pode alguém fazer quando tem trinta anos e, virando a esquina de repente, é tomado por um sentimento de absoluta felicidade — felicidade absoluta! — como se tivesse engolido um brilhante pedaço daquele sol da tardinha e ele estivesse queimando o peito, irradiando um pequeno chuveiro de chispas para dentro de cada partícula do corpo, para cada ponta de dedo?
Não há meio de expressar isso sem parecer “bêbado e desvairado?” Ah! como a civilização é idiota! Para que termos um corpo, se somos obrigados a mantê-lo encerrado em uma caixa, como se fosse um violino raro, muito raro?”
Querido João,
Às vezes, em noites como essa, em que essas tais sensações boas, mas que eu desconheço o nome, me levam às lágrimas eu penso em você e me pergunto se não fiz tudo errado na vida. Eu podia ter sido mais talentosa e criativa. Eu podia ter fugido com o circo aos oito, como planejado, e depois, podia ter me casado aos dezenove, com o primeiro maluco que me propôs e me ofereceu uma viagem de fusca pela Bahia de lua de mel. Eu podia ter tido competência pra aprender a tocar pelo menos um instrumento. Eu podia ter aprendido a pintar, a fotografar de verdade, a andar de bicicleta, a dirigir direito. Eu podia ter dado mais orgulho pra minha mãe. Eu podia ter decepcionado menos as pessoas. Eu podia ter dito “não” mais vezes; e podia ter mandando à merda muito mais pessoas, como você fez. Eu, seu coração, podia ter batido mais forte. Podia ter feito mais feliz. Eu penso em você e sempre percebo que sou apenas eu. Aqui, nessa chuva, com os olhos marejados e ouvindo as guitarras. Sou apenas eu; sozinha. Com essa família tão grande que você começou com a mulher mais forte que se tem notícia, e que é a minha base pra tudo; com a mãe maravilhosa e com o melhor pai que podia existir, ambos feitos por vocês, pra mim; com os meus irmãos, os de sangue e os de coração; com as outras famílias, que eu considero, mesmo sem “conta sanguínea”; com os meus amigos tão queridos, inclusive os que eu perdi; com todos os homens que eu amei, mesmo os que não me amaram de volta; com toda a companhia das incontáveis pessoas conhecidas em trinta anos, as que ficaram e as que passaram; com todas essas músicas alheias; com todo esse amor, imenso; com essas pernas, curtas demais pra abraçar o mundo; com esses olhos muito míopes pra enxergar tudo com clareza, imediatamente; com esses quereres demais pra uma vida só. Apenas eu, sozinha com o mundo. Não pelo mundo, mas porque é assim que é. Eu e o seu sangue correndo nas minhas veias.
Sinto saudades do seu sorrir.
Com amor.
Ju
Dear,
Na semana que acabou de passar eu comecei dois trabalhos novos. Fui num show de samba. Me sentei numa mesa naquele boteco sujo com aquele compositor famoso, sambistas, produtores e amigos. Dudu Nobre passou pra dar um alô. Conheci uma mulher dama que me garantiu que somos, todos, a imperfeição do mundo. Almocei com uma amiga querida. Tomei sorvete de graviola. Finalmente vi um show de Lulina e cantei junto com todas as outras moças do lugar. Recebi aquele telefonema e ouvi aquele sotaque que eu adoro por quase uma hora. Esperei por um email que nunca veio. Assisti uma comédia romântica pra tentar chamar o sono. Tive um dia cheio e com horários, como os que eu não tenho desde agosto. Fiz um teste. Coloquei uma flor no cabelo e fui ouvir um moço chamado Tibério Azul cantar Chico Buarque no meu lugar preferido. Sorri a noite toda. Dancei; sozinha e com um estranho simpático que me rodopiou no ar. Dormi até tarde. Paguei as contas e o domínio pra botar o meu bloco na rua. Trabalhei. Comprei uma cadeira nova. Conheci um lugar incrível, que eu adoraria te mostrar. Comi o melhor nhoque do mundo. Tive um domingo perfeito com três dos meus melhores amigos e quis, com todas as forças, me mudar pruma casa no campo, com meus discos, meus livros, meus amigos, um cachorro chamado Tim Maia, e nada mais. Me embriaguei com vinho artesanal. Sonhei com o melhor email do mundo; que nunca veio.
Foi uma semana incrível.
E eu senti a tua falta todos os dias.
No fim de tarde de segunda. Na mesa do boteco sujo. No meio do show de Lulina. Quando acordei na quinta-feira. Quando fui dormir na quinta-feira. Dançando sozinha e repetindo versos de Chico. Quando acordei no sábado. Quando enjoei de trabalhar. Na loja de móveis. Na Serrinha. No cochilo de domingo. Quando acordei de um sonho bom. E agora.
É. Eu sei.
Tanto tempo e ainda não aprendi a me despedir.
“…mas se tu me perguntar como é [o sentimento], eu posso te mandar esse vídeo e dizer: é mais ou menos assim.”
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