azar o seu, querida*

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bestiário*

Para Mirela. 

“Mudei-me na quinta-feira passada, às cinco da tarde, entre névoa e tédio. Fechei tantas malas em minha vida, passei tantas horas preparando bagagens que não levavam a parte nenhuma, que a quinta-feira foi um dia cheio de sombras e correias, porque quando vejo as correias das maletas é como se visse sombras, partes de um látego que me açoita indiretamente, da maneira mais sutil e mais horrível. Mas fiz as malas, avisei sua criada que viria instalar-me, e subi no elevador. Precisamente entre o primeiro e o segundo andar, senti que ia vomitar um coelhinho. Nunca lhe contara antes, não acredite que por deslealdade, mas naturalmente a gente não vai ficar explicando a todos que, de quando em quando, vomita um coelhinho. Como isso sempre me tem sucedido estando só, escondia o fato como se escondem tantos detalhes do que acontece [ou a gente faz acontecer] na intimidade total. Não me censure, Andrée, não me censure. De quando em quando me acontece vomitar um coelhinho. Não é razão pra não viver em qualquer casa, não é razão para que a gente tenha de se envergonhar e estar isolado e andar se calando.”

*Júlio Cortázar

uma comunista perigosa.

[ou Notas Mentais de Uma Desvairada na Paulicéia]

Querida Professora,
Lembrei deveras da senhora enquanto cumpria o meu dever cívico como aluna especial de mestrado, prestando máxima atenção na minha aula sobre os CIAM’s. Meu já querido professor nos contou uma história interessantíssima sobre o respeitado senhor Le Corbusier, conhecido nosso como a senhora bem sabe, ter sido considerado, durante muito tempo, um comunista perigosíssimo em Moscou. Estou louca professora. Dando vivas à Carta de Atenas, mesmo que ela esteja de pé quebrado. Eu também proponho trator cartepillar passando por cima das cidades. Tabula rasa para a reconstrução. Louca. Louca da Maria Caralho. Deve ter sido o sol naquela ida pra Santo André. Estudando o tal do urbanismo. Aquele mesmo que não existe. E achando muito bom, obrigada. E como pode ter tanta história se não existe, oh deuses? Estou louca, professora. Vou me mudar pra Alsácia-Lorena. Gosto desse nome, afinal. [...]

where i end and you begin.

Dear,
Um litro de suco de laranja depois e eu posso te contar como é que acaba. Começa com aquela coisa de adimitir. Assumir. Mea culpa. Coisas assim. Um monte de cusparadas vem depois disso. Continua acabando com falta de educação e…eu ia dizer indiferença, mas na verdade indiferença faz parte do processo todo. A real. A que se finge. Está instrínseco. Entende o que eu quero dizer? Continua acabando com falta de educação. Quando coisas como um simples “obrigado” fariam diferença. Poderia ser o começo de uma conversa. É disso que eu estou falando. Conversar é bom. Dizem. E quem sabe acabar não fosse realmente necessário. Ou pelo menos não assim. Se é que você me entende. Conversar em bom, não é? Mas aí depois de fingir que conversou vem o silêncio. Continua acabando com o silêncio. Não me entenda mal. Você me conhece. Silêncio é bom. Eu gosto. Mas estou falando daquele outro tipo. Não foi comigo. Não aconteceu. Faz de conta que não aconteceu. Quem é você? Indiferença. Sabe como é. Está intrínseco. E aí um dia você se cansa e pensa “puta que pariu, vá tomar no cu, foda-se essa merda toda”. E aí acaba. Devagar. Gota a gota. Às vezes parece que não. Eu sei, dear. Mas acaba. Tudo acaba.
Volto em alguns dias.
Obrigada pela carta.
A.

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