[ou: sobre as coisas que me fazem chorar no sofá daquele bar]
“É engraçado como as coisas são. Naturalmente ouvimos uma seleção imensa de músicas nos últimos quatro dias. A vida precisa de trilha sonora, como bem concordas. Mas não é mesmo inexplicável como, subitamente, uma música se torna a mais importante de determinados períodos? Botão de on/off de todas as lembranças? Voltar é sempre estranho, como bem sabes. Por isso as lágrimas e o rímel borrado, no sofá do lugar que sempre foi o meu preferido. Eis o botão de on/off de todas as lembranças dos últimos dias. Mas não te preocupes, não se trata assim de uma tristeza. Antes de ficar triste, fico agradecida. Pelos amigos que tenho. Pelas pessoas que simplesmente aparecem. Pelas oportunidades, conversas, sorrisos e declarações bombásticas. Assim mesmo, bem piegas e sentimentaloide. Como bem sou. Como bem sabes. Estou esperando visitas. Let the seasons begin.”
“Eu estava tentando comprar um livro, logo depois do acidente naquela loja de cosméticos e aí me deu uma vontade incontrolável de ir pra casa ouvir Elvis o resto da noite. Vesti as tuas roupas. Reli os conselhos da tua última carta. As coisas todas parecem melhores. Catei um gato vira-lata na rua e lhe dei o nome de Miiu Miu. Eu gosto de um bom vira-lata, bem sabes. A casa está cada dia maior e sempre cheia de música. Precisas ver o desenho atrás da porta. E saberás que, agora que não estou mais apaixonada, me tornarei artista a qualquer momento.”
“Querida Flor,
Guardas o meu coração.
Como seria então possível não me apaixonar? Pelos teus verdes e azuis, vermelhos, amarelos e laranjas. Pelas tuas curvas e elevações. O brilho do mar nos teus olhos. O sol no teu céu. Guardas o meu coração. E como então não ouvir, repetidamente e num querer de para sempre, essas canções que nos acompanharam até aqui? Tuas músicas. Tuas vozes. Teus barulhos. Tuas gírias. Trilha sonora. Guardas o meu coração. Os meus [teus] olhos. A minha [tua] boca. Guardas agora um meu querer. Os meus diálogos imaginários. As borboletas em festa da minha barriga. As palavras, ditas e não ditas por nós. As melhores idéias. As maiores vontades. Guardas o meu desejo. Inteiro. Intenso. Só pra ti. Querida Flor. Guardas o meu coração. E sendo assim guardas também a minha dúvida, a minha urgência, a minha saudade, o meu não saber. E quem saberá? Guardas o meu coração. As mãos dadas. As festas nas ruas. A tranqüilidade do cotidiano. O amor em quartos de hotel. O sorriso fácil e tão simples. A embriaguez. As fotografias. Os fogos de artifício. As possibilidades. O que há de vir, se haverá de vir.
Querida Flor.
Guardas o meu coração?
Com cuidado.
E bem querer.
“Fui eu que roubei todas as tuas fotografias. Numa sexta-feira dessas em que estavas no botequim. Quase todas. As polaroids, deixei onde estavam. Essas eu não quis. As outras todas levei comigo. E estudo agora o pedido de resgate, enquanto analiso todos os teus olhos e todas as tuas bocas e todas as tuas expressões. Todos esses dias. Uma vez te pedi. Tu disse: todos. Posso provar. Posso cobrar. Eu te proponho.”