azar o seu, querida*

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“Minha mãe, Linda.”

Filha de Linda e Paul, a fotógrafa Mary McCartney aceita o convite de Vogue e faz um relato pessoal e revelador sobre o trabalho de sua mãe, em exposição na galeria James Hyman, em Londres, até 19 de Julho
linda mccartney.
Boa parte das lembranças que tenho de minha mãe são dela fotografando. Quando era criança em Londres, costumava segui-la até o laboratório montando em um dos quartos de nossa casa e ficar observando-a revelar as fotos. Era mágico acompanhar as imagens em preto e branco surgirem no papel, ali na minha frente. Ela tinha um estilo único, relaxado e elegante ao mesmo tempo, que deixava qualquer fotografado à vontade. Também era muito pé no chão, tranqüila, tinha uma delicadeza que não intimidava – características essenciais na hora de criar o tipo de imagem que lhe interessava.
Mas foi só depois dos 20 anos, quando também virei fotógrafa, que realmente aprendi a apreciar a habilidade técnica de minha mãe. Acho que não percebi antes o quão talentosa ela era porque sempre parecia tudo parecer facílimo, além de trabalhar com extrema rapidez. Quando alguma coisa chamava sua atenção, ela construía a cena na cabeça e tirava a foto quase por reflexo. Logo que comecei a fotografar, me dei conta de como era difícil focar, ajustar o fotômetro e a velocidade – tudo ao mesmo tempo – para capturar um momento que, se eu não fosse hábil o suficiente, poderia desaparecer para sempre. Mas minha mãe dificilmente perdia uma oportunidade. Mesmo quando não tinha sua câmera em mãos, dizia que estava capturando a imagem com sua “câmera da alma” – ela devia ter um milhão de fotos maravilhosas guardadas ali dentro.
Ao longo de sua vida, minha mãe se deparou com muitas coisas visualmente interessantes. Sua carreira começou como fotógrafa de rock, fazendo retrato de gente como Rolling Stones, Jim Morrison, Janis Joplin e Jimmy Hendrix, simplesmente porque ela era apaixonada por música e interessada em tirar fotos dos músicos que admirava. Algumas dessas imagens estão na histórica primeira edição da Rolling Stones Magazine, de 1967.
Depois que se casou com meu pai – e sobretudo depois que nascemos – ela foi se voltando mais pra fotografia de arte, lançando livros e montando exposições em galerias ao redor do mundo, que incluíam imagens de todos os seus interesses: animais, paisagens, objetos que lhe chamaram a atenção em viagens, momentos familiares…A câmera estava sempre por perto. Ela gostava de imagens reais – nada muito manipulado parecia lhe interessar – e tinha como mestres Dorothea Lange e Edward Steichen.
stella maccarney by linda maccartney.
Há uma foto especial nessa exposição na James Hyman Gallery, de meu pai e minha irmã Heather, que foi tirada em Cliveden, na Inglaterra. Cada um está em um canto da foto, com um jardim entre eles. Para mim ela é atemporal, linda, sempre fico feliz quando a vejo. As fotos que minha mãe tirava sempre refletiam calor, ternura. Ela conseguia captar isso nas pessoas. E também tinha um grande senso de humor, como fica evidente na foto da garotinha cheia de atitude usando uma viseira, minha irmã Stella. Atrás dela, penduradas na parede como se fossem um quadro de avisos, mensagens que meus pais consideravam importantes. Uma de minhas imagens favoritas da exposição foi tirada na Escócia. É uma foto lindamente composta, que mostra meu irmão James pulando da capota de um carro, enquanto meu pai se equilibra na cerca de madeira. Até o cachorro ao fundo está perfeitamente posicionado, como se estivesse posando.
paul mccartney e james mccartney by linda maccartney
Em 1997 minha mãe foi convidada para tirar fotos no estúdio do pintor Francis Bacon, em Londres, antes de ser desmontado e remontado na Irlanda. Era uma sessão noturna, cheia de atmosfera, e a luz da noite deu um toque sombrio às imagens…Embora costumasse fotografar com a máquina em punho, uma Nikon 35mm, nessa ocasião ela preferiu usar uma câmera de grande formato, colocada sobre tripé. Depois que terminou de fotografar o estúdio, deslocou a câmera até a sala de estar e fez um auto-retrato, em que aparece refletida no grande espelho que havia ali. Ela fez a foto da porta, de frente para um busto de William Blake. Ela também gostava de fazer auto-retratos em que aparecia através de suas sombras. O que faz parte da exibição me deixa feliz e triste ao mesmo tempo. Sinto como se a sombra fosse começar a se mexer, e ela, entrar na sala e me fazer sorrir.

linda mccartney, auto-retrato.
*Originalmente publicado em Vogue #358, Junho de 2008
**Para Rita Prado.

2 Comments, Comment or Ping

  1. Ai…
    eu li aqui, duas vezes, na Vogue =)
    Obrigada, Ju.

  2. cybelle

    que lindo.

Reply to ““Minha mãe, Linda.””

miaazaroseuquerida